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Entrevista com Cuca

Porto Velho, 18/11/2009

Com paixão pelo Flu acesa novamente, Cuca rejeita rótulo de salvador da pátria

Treinador recorda momento em que torcia pelo clube na infância com irmão Cuquinha e faz divisão de méritos em arrancada: ‘Dou 99% aos jogadores’

Cahê Mota e José Ilan Rio de Janeiro  

Paixão e profissionalismo. A fórmula do sucesso do Fluminense, invicto há 11 partidas e vivíssimo na luta contra o rebaixamento no Campeonato Brasileiro, remete Cuca à infância e torna ainda mais saborosa a caminhada para cumprir o que ele mesmo decretou, no dia de sua apresentação, como o maior desafio de sua carreira.

Sob a desconfiança dos erros cometidos e assumidos na passagem turbulenta pelo Flamengo, o treinador desembarcou nas Laranjeiras no dia 2 de setembro com a missão de salvar uma equipe com cerca de 98% de risco de queda para a Série B e reativar a própria carreira. Mais do que isso, Cuca encarava a linha tênue entre a razão e a emoção, trazendo à tona um sentimento encubado desde a infância, no Paraná.

- Torcia pelo Atlético-PR, mas todo mundo tinha um time no Rio. Todo mundo era  Flamengo, mas eu e o Cuquinha éramos Fluminense. Me lembro bem da ocasião em que tinha Washington e Assis, de um gol de título em cima da hora que comemoramos bastante. É da época de guri – revelou em entrevista exclusiva ao GLOBOESPORTE.COM.

E foi realmente com base no sentimento que Cuca começou a mudar o rumo tricolor. Precisamente no empate por 2 a 2 com o Goiás, pela 31ª rodada do Brasileirão, o treinador arriscou e optou por quem ele sentia estar com mais vontade de tocar o barco. Trocou o ex-capitão Luiz Alberto por Dalton, chutou para longe especulações de mudança de comando, e desde o compromisso seguinte, contra o Atlético-MG, o Flu só sabe o que é vencer.

Assim o treinador começou a escrever o roteiro daquela que pode se tornar a reação mais improvável da história da competição na era dos pontos corridos, um filme que Cuca descarta o papel de protagonista.

- Acho que 99% da responsabilidade é dos jogadores – decretou.

Confira toda a entrevista do treinador tricolor:

Onze jogos de invencibilidade e seis vitórias consecutivas. Qual foi a mágica que você aprontou, Cuca?

Não tem mágica. É muito trabalho e dedicação do pessoal em campo. Isso está se refletindo em resultado e nos dando uma chance de escapar desse rebaixamento.

Sempre foi colocada em questão a qualidade do elenco do Fluminense. De repente, jogadores que eram considerados ruins começaram a jogar muito bem, caso, por exemplo, do Mariano. Como isso aconteceu?

Sempre achei o Mariano um bom jogador. É que deu aquela liga, aquela junção. Hoje o time é outro, o pessoal é parceiro. Eles estão sempre se cobrando, se ajudando, se motivando. Temos jovens como o Dalton, o Digão, o Gum, o Dieguinho, o Diogo, o próprio Rafael. São todos jogadores muito jovens. Maicon, Alan, Tartá... A maioria é cria do clube e deu aquele jeitinho gostoso. Se Deus quiser, vamos até o fim do ano assim.

Cahę Mota/GLOBOESPORTE.COM
Cuca olha para o céu durante entrevista ao GLOBOESPORTE.COM, nas Laranjeiras: fé, a marca do técnico

Quando foi que esse quebra-cabeça se encaixou?

Acho que foi naquele jogo em Goiânia. Foi um jogo-chave para mim. Algumas coisas ocorreram de ordem interna, outras de direção técnica, tomamos algumas medidas e a partir dali as coisas melhoraram bastante.

Foi uma partida em que, por exemplo, o Luiz Alberto pela primeira vez não foi titular da zaga. Foi difícil tomar esse tipo de decisão, de barrar jogadores veteranos?

O Luiz é só um exemplo. Não estão jogando o Roni, o Paulo César, o Wellington Monteiro, o Fabinho, mas se estivessem o time estaria bem também. Não existe culpado. O pessoal que entrou está respondendo bem, é puramente questão técnica.

E como estão se comportando esses jogadores que estão fora?

Eles devem estar felizes. Fazem parte do grupo e podem amanhã jogar. Não tenho nada contra ninguém. O que existe é um momento bom que todo mundo está vivendo.

Qual o seu percentual nesta reação, Cuca?

Marino Azevedo/Photocâmera

            Cuca ao lado de Fred: treinador aponta atacante como
            seu representante em campo
Cuca ao lado de Fred: treinador aponta atacante como seu representante em campo

É pequeno comparado ao deles dentro de campo. Se eles não respondem ao que é planejado, nada vale. Então, 99% é deles.

Em geral, quando o trabalho de um treinador dá certo ele tem um representante em campo. Podemos dizer que no Fluminense esse papel é exercido pelo Fred?

Sem dúvida. É o representante, mas junto dele vem todo o pessoal. Desde o Rafael, o Fernando Henrique, passando por todo o elenco. A combatividade do Diogo, a pegada e a saída para o jogo do Diguinho, a criação do Conca, a velocidade do Maicon, o oportunismo do Alan, a irreverência do Tartá, o dinamismo do Mariano, a correria do Dieguinho, a estabilidade do trio de defesa... É assim que se monta uma equipe.

Antes dessas quatro vitórias consecutivas, você chegou a achar que não daria para virar?

Sempre acreditei e continuo acreditando. Até porque, não está nada virado. Estamos dois pontos atrás, faltando três jogos. Agora enfrentaremos o Sport. Muita gente fala que eles já estão rebaixados, mas vai ser mais duro do que vencer o Palmeiras. Depois vamos ter um jogo decisivo com o Vitória, que pode definir muita coisa. Para em seguida encerrar contra o Coritiba. É dedicação total, aliada à Sul-Americana, que é um campeonato que queremos, mas tira muita coisa no condicionamento físico. Temos que saber equilibrar.

Durante a boa fase é fácil receber elogios, mas antes você sofreu muito no clube?

Pô! Sofri muito! Nesse jogo com o Goiás mesmo, era decisivo, tivemos uma reunião interna dura, como tem que ser. São coisas que fazem parte da profissão. O torcedor estava desconfiado com razão. Mas hoje o momento é outro.

O que mais te fez sofrer?

No geral, quando o time mesmo jogando bem não conseguia ganhar, vinha aquela responsabilidade. Alternativas de troca eram cogitadas todos os dias. Era Joel, Branco, Assis, PC Gusmão...Isso traz um desgaste. Mas graças a Deus as coisas mudaram.

A sua experiência no Flamengo influenciou de alguma forma na relação com o grupo ou até mesmo com a imprensa quando chegou ao Flu?

É outra situação. Temos que entender que às vezes erramos na vida da gente. Tive um erro no Flamengo, de uma conversa que tive com um repórter que foi retratada para jornal sem ser entrevista. Isso foi ruim. Errei e assumo, como assumi na ocasião. Mas não tenho queixa nenhuma do pessoal, pelo contrário. Só agradecimento. Me fizeram campeão pela primeira vez. Foram oito meses de bom trabalho. Hoje vendo o time deles bem, fico feliz também.

E no Botafogo, que briga pela mesma vaga que você na Série A? Como fica essa relação?

No Botafogo eu tenho relação afetiva extrema. Nunca neguei para ninguém que foi o melhor lugar que trabalhei até hoje. Fiz três montagens de grandes times junto com a diretoria. Todos moram no meu coração. Mas hoje somos adversários. Não só do Botafogo, mas também do Atlético-PR, do Vitória, do Santos, do Coritiba.

Você uma vez disse que seu time de infância era o Fluminense. É ou não é? Está sendo especial para você este momento?

Meu time de infância era o Atlético-PR, mas todo mundo tinha um time no Rio. Todo mundo era Flamengo, mas eu e o Cuquinha éramos Fluminense. Me lembro bem da ocasião em que tinha Washington e Assis, um gol de título em cima da hora que comemoramos bastante. É da época de guri. Depois que se vira profissional, acaba perdendo aquela paixão de torcedor. Fica a lembrança, mas aprendemos a gostar de outros times por trabalhar neles, sentir o clube. É gostoso.

Quando você vê a torcida enchendo o Maracanã, como nos últimos jogos, não te remete a esse tempo?

Vou te falar. Quando tinha um dinheirinho, que era raro, ia ao cinema não para ver filme, era para ver o Canal 100. E naquele telão eu não via o jogo, olhava para a torcida. Fla-Flu, jogos contra o Botafogo, o Vasco... Era cada jogão, uma coisa linda. Até hoje, quando vejo o Maracanã cheio, agradeço a Deus por fazer parte deste espetáculo.

Você vai ficar no Fluminense em 2010 se o ano terminar bem?

Faltam 20 dias para acabar o ano, temos seis jogos que definem a nossa vida na Série A e na Sul-Americana. Não quero perder um minuto para falar de dinheiro. Quero me concentrar no Cerro, no Sport, depois, se Deus quiser, ir para Quito ou para o Uruguai. Não tenho tempo. Depois do dia 6 a gente senta e define alguma coisa.

Faltam seis jogos, como você disse. O que vai ser decisivo nessa reta final?

Sempre peço para Deus sabedoria e sorte. Para saber o que fazer e para sempre a bola passar perto e sair para o adversário e entrar para o nosso time. Deus está abençoando. Temos que ter fé. E fé combina com o Fluminense em todos os sentidos. Quando o pessoal canta a musiquinha do João de Deus eu canto junto. É momento de luta. Quando pensarmos que somos os bons, vamos perder. Temos que continuar como guerreiros.

Se conseguir salvar o Fluminense, será sua maior vitória na carreira?

Não tenho dúvida nenhuma disso.

 
 
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